segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

eSTÁ NA HORA...

Deixo os pensamentos fluir, tentando não os analisar nem fixar-me em nenhum deles…respiro fundo algumas vezes e deixo os ombros descaírem, assim como o meu estômago, as ancas e, por fim, as pernas e os pés.
Subo ao som de Michael Nyman (“The Piano”) e a sensação de “Ser” começa a prevalecer…descontraio…uma vez no palco é como se ganhasse uma nova alma!
A luz incide sobre mim, o público fica mergulhado na escuridão. Com o coração e a alma a nu, assumo de imediato a manipulação dos sentimentos de quem me observa. Sinto o controlo do chão debaixo dos pés descalços e, no entanto, parece que a Terra rodopia a um ritmo diferente do da raça humana (a energia que se empenha num espectáculo tem uma dimensão diferente daquela que nos anima nos ensaios…é mais alta, sem dúvida, mas também mais intensa). Na minha mente uma imagem começa a ganhar forma e a movimentar-se: estou rodeada de água, repleta de luz, paixão e medo. Parti numa viagem…naufraguei…e agora estou perdida numa ilha deserta…este é o enredo que Danço
Ritmo…e o meu corpo transformado em gesto (anterior à própria palavra), os dois elementos primordiais, que vou desvendando e oferecendo a quem quer receber. Não faço ideia se as pessoas estão a gostar ou não. Eu estou!
A música, as luzes, o suor nos olhos, os músculos tensos, a respiração ofegante, os movimentos precisos e os últimos passos esforçados, que põem fim aos 35 minutos de Dança. O espectáculo termina: aplausos, ovação de pé, holofotes desligados, público fora do auditório, camarins vazios…e piso o palco pela última vez.
Dancei durante 9 anos…
Para mim, dançar é um mistério, talvez o mais verdadeiro de todos…é um acto tão natural como respirar, falar, amar ou odiar. Ela é a expressão dos meus sentimentos.
Todas as horas de ensaio, suor, dor, alongamentos, barra, pontas e pliés foram recompensadas nos momentos que vivi em cima de um palco.
Hoje, com 30 anos, tenho saudade dos nervos que antecediam o início de uma apresentação mas esperança de os voltar a sentir…porque vou dançar enquanto puder!

GULEX


“Desconfia de um deus que não saiba dançar.” - Nietzsche

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